Existem centenas de fabricantes de embalagens de todos os tipos no Brasil, mas nenhuma que tenha como matéria-prima fécula de mandioca (amido na forma de pó) em vez de isopor.
"Opa, olha o futuro aqui", pensou o executivo Claudio Rocha Bastos, que há quase dez anos estava à procura de um negócio inovador focado em meio ambiente em que pudesse investir. Nasceu assim a Cbpak Embalagens Eco-Sustentáveis, um dos negócios "adotados" pelo programa New Ventures, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas, cujo objetivo é apoiar bons planos de negócios capazes de atrair investidores de risco.
O programa, uma iniciativa mundial da World Resources Institute, está presente, além do Brasil, também no México, China, Indonesia, Colômbia e Índia. "A ideia inicial era apoiar empreendedores já que se supunha que os investidores não se interessavam por negócios ‘verdes’ porque não existiam bons projetos", comenta André Carvalho, coordenador do programa. "A experiência mostrou que não é bemassim que ocorre." Segundo Carvalho, há bons projetos que atuam em nichos que, emalguns casos, têmgrande potencial de expansão por pressão da própria sociedade.
"O nosso papel é identificar as potencialidades desses empreendimentos e seus impactos socioambientais positivos." Ou, nas palavras de Mário Monzoni, coordenador do CEs-FGV, "deixar a noiva bonita e tocar o violino para realizar o casamento." Dez anos de maturação No caso da Cbpak, de Rocha Bastos, passaram-se dez anos até que o empreendimento maturasse, encontrasse o seu mercado e ganhasse escala. Depois de se apresentar em um dos fóruns da New Ventures, a empresa realizou uma transação inédita com o BNDES, que incluiu um empréstimo de R$ 2,3 milhões como parte da linha de inovação, e a compra de uma participação de35%por R$ 2 milhões.
Com os recursos, a Cbpak expandiu sua capacidade de produção de 150 mil peças por mês para 800 mil para assim dar conta, neste segundo semestre do ano, dos novos clientes, entre os quais a LSG Lufthansa Service Holding AG, subsidiária de catering da companhia de aviação alemã, no Brasil. Exemplos como esse são difíceis de encontrar, mas acontecem, afirma André Carvalho.
O New Ventures já intermediou investimentos de oito empresas nos seus seis anos de atuação. Parece pouco? Para Carvalho, "considerando o contexto brasileiro, em que o capital empreendedor não é tão significativo, é um resultado muito bom". Ainda mais levando em conta que uma parte dos investidores ainda acha que as empresas sustentáveis são "exóticas" e pouco atraentes". Para Sidney Chameh, diretor da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (Abvcap), a aproximação com o capital empreendedor vem crescendo nos últimos anos. Ele admite que a demanda ainda é pequena.
"A procura de empresas que tenham a sustentabilidade no conceito é consistente, mas as oportunidades ainda são poucas." Na opinião do executivo, isso ocorre porque o capital empreendedor não sente confiança no valor agregado e persistência dessas empresas. "Cabe a nós convencer esses investidores da adequação desses negócios", afirma Carvalho. A cada ano, participam do programa dezenas de empreendedores, muitos ficam pelo caminho. "Os que continuam (mais de 30) persistem de uma forma ou de outra. Algumas evoluíram pouco e ainda são pequenas, outras aprenderam e cresceram, mas todas constituem negócios interessantes."